domingo, 6 de março de 2016

Tão mais sinceros são os ventos que se encontram, que menos imagens sobram pra lembrar. Mas o vento que bate na cara no meio da caminhada solitária traz muito mais que imagens. Dessa forma um cheiro vem e volta rapidamente, pois o vento leva. Pra onde eu não sei! Porque eu teria de saber pra onde o vento leva os cheiros? Eu sei que alguns cheiros são mais sentidos que imagens. E quando trazidos pelo vento eles te levam junto, pra vários agoras que já nem se lembra com tanta nitidez. Mas eu lembro de um cheiro que me leva prum dos melhores lugares que já vivi. Aquele cheiro de não sei o nome. Nunca consegui achar uma palavra pra isso, na verdade nem tento mais. Eu lembro também de um lugar que tinha um cheiro bem específico e me causava várias sensações...mas nunca consigo chegar lá direito. Chega até perto se eu me esforçar, mas na real tá muito mais longe do que imagino. É foda!
Hoje eu senti aquele cheiro que não tem palavra pra definir...além do tempo que não o sentia, tinha alguma coisa diferente. Como quando você começa a contestar e estranhar certas coisas que já lhes são muito familiares, sabe? Mas quando ninguém tava vendo eu fui lá e contestei, eu testei, me lembrei e cheirei até perder o tento. Comi com todo o meu eu animal, com as mãos, com a boca, com o rosto todo, de corpo inteiro. Comi primeiro bem devagar, com calma e atenção. Procurei comer todas as partes, detalhe por detalhe. Depois com raiva, de boca aberta e cuspindo tudo enquanto gritava desesperadamente por alguma ajuda. Eu precisava de ajuda. Aquilo me possuía ao ponto de não me reconhecer mais. De certo modo foi bom, não nego. A sensação de perder o controle por alguns instantes me consumiu e me agradou. Mas eu não digeri, esse foi o problema. Fui lá e vi com meus próprios eus que não me despertou aquela sensação sem nome que vem do cheiro. Eu tentei. Jurei a mim mesmo que tentaria com o máximo empenho...
O vento que te estapeia a cara no meio da caminhada solitária traz muito mais que sensações! Ele pode te fazer sonhar ou acordar pra realidade, pode trazer lembranças e, com a mesma força, derrubá-las. Bagunça e organiza com tamanha maestria que quase passa despercebido. Cheiro de vento!
Ele te faz querer engolir tudo.
Pouco importa se vai digerir ou não.
Pouco importa o depois, porque ele sempre volta. Pouco importa a porta aberta, sempre há uma fresta em algum canto dessa casa.
Cheiro de vento!
Que me fez querer vomitar.