terça-feira, 21 de outubro de 2014
caronas #2
Hoje foi aquele dia em que chove depois de uma seca fora do normal e todo o concreto instaurado no cerrado sente o peso de não pertencer ao lugar. O caos contrasta com a plenitude do Sol se manter enquanto chove, das cores, formas e vida sendo exalada de seu habitat natural. E Lucas me falava sobre como a água da chuva que descia na pista se parecia com a infinitude de um rio, que não importava o que viria pela frente ou a superfície por onde passaria. No meio de tanta conversa no caminho até em casa, horário de pico e engarrafamento, essa foi uma das poucas coisas em que prestei atenção com atenção. E falava, e repetia, e alterava o tom de voz como sempre faz quando algo lhe atrai. Observava atento o bom manipulador de palavras que estava ao meu lado. Poeta? Poeta! Quando quer, faz. E o brilho em seu olho me fez olhar no espelho e ver que o meu também brilhava. Gargalhei sozinho e contei a piada. Atribuo metade do brilho ao cigarro de palha fumado durante o engarrafamento, e outra metade a poesia que ele fazia por puro prazer de fazer.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
caronas #1
E de novo subi a ladeira, mas dessa vez com um tênis pesado e o sol forte na cabeça. As pernas sentiram mais que o habitual,
a seca castigava. Chegando na portaria, um carro aponta na curva. Dedo erguido, cabeça também! O carro passa como se eu não
existisse. Normal. (Pegar caronas nesse lugar não é tão fácil. Diferente de outros condomínios, aqui muita gente acha legal
entrar no carro, entrar na bolha e esquecer do resto) Portanto, pronto pra próxima! E antes de virar completamente o corpo, já aparece outro, esse
mais antigo e sem luxo algum. De novo! Dedo erguido, cabeça também! Me olha nos olhos e para. Quase não acredito de tão rápido que foi.
Dentro, vejo que o moço já havia me dado carona antes. Isso me faz sentir mais a vontade. Logo reparo que está dirigindo descalço,
fuma um cigarro fedido e, mesmo sabendo quem eu sou, ainda analisa. E analisa com aquele olhar puro e desconfiado.
Tento quebrar o gelo falando algumas coisas aleatórias, mas sem sucesso. Análise e desconfiança ainda permanecem. Pergunto como vai seu trabalho.
E dá certo! Consegui mais atenção com a pergunta. Parece que era necessário provar que me lembrava. E mesmo dirigindo,
me olhava nos olhos enquanto falava sobre ser jardineiro na Embaixada do Panamá. Se soltando aos poucos, Vitor, que é mineiro de Januária, (aquela
cidadezinha que produz cachaça) falava com um sotaque carregado de interior, de humildade e pés no chão, o que me atraiu muito.
Trazia consigo aquela característica de gente que vai pra cidade grande e desconfia de tudo, que fala só quando é solicitado.
Desconfia até ver que já confia e se sente seguro pra falar sobre qualquer coisa. Então desembestou a falar...
E depois de falar sobre sua vida, o preço da gasolina e o quanto é absurdo o que pagamos em impostos no Brasil, ele me pergunta: "E eleições?"
[pausa, risos] Pensei sobre o que ia dizer e resolvi entrar na dança. Disse o que achava do atual momento, que votaria em X pra não votar em Y,
e várias outras considerações. Ele presta bastante atenção, concorda, discorda e me dá uma aula quando chega sua vez de falar. Com segurança e sensatez
afiadas, me fala sobre o poder da mídia nessas eleições e diz que em sua cidade, Januária, o povo é todo Dilma, mas quem está no poder é do Aécio,
pois 'no interior funciona diferente'. Mas que agora o PT ganhou por lá e espera uma mudança de verdade. Espera, independente de partidos ou de
quem estiver no poder, que as pessoas tomem consciência de que podem se beneficiar, beneficiando as outras também. Tem completa noção de que só depende de nós.
Eu concordo.
Mas a questão aqui está longe de ser política. A aula de hoje foi muito mais de olho no olho e humildade do que qualquer outra coisa. Vitor diz que passa na portaria
todo dia no mesmo horário, dando abertura para futuras caronas. Me esqueci de perguntar se Vitor era feliz, mas garanto que não era triste.
Chegando perto do destino final, o papo ainda estava longe de terminar e tivemos que cortar rapidamente nos despedindo e esperando o próximo encontro.
Acho que o moço não faz idéia do quanto uma carona e um dedo de prosa podem mudar o dia de alguém. "Tenha um bom dia, Vitor! Até a próxima!" -
"Bom dia, rapaz! Inté mais ver!" E assim seguiu-se a máxima das caronas: quem tem menos, dá mais!
a seca castigava. Chegando na portaria, um carro aponta na curva. Dedo erguido, cabeça também! O carro passa como se eu não
existisse. Normal. (Pegar caronas nesse lugar não é tão fácil. Diferente de outros condomínios, aqui muita gente acha legal
entrar no carro, entrar na bolha e esquecer do resto) Portanto, pronto pra próxima! E antes de virar completamente o corpo, já aparece outro, esse
mais antigo e sem luxo algum. De novo! Dedo erguido, cabeça também! Me olha nos olhos e para. Quase não acredito de tão rápido que foi.
Dentro, vejo que o moço já havia me dado carona antes. Isso me faz sentir mais a vontade. Logo reparo que está dirigindo descalço,
fuma um cigarro fedido e, mesmo sabendo quem eu sou, ainda analisa. E analisa com aquele olhar puro e desconfiado.
Tento quebrar o gelo falando algumas coisas aleatórias, mas sem sucesso. Análise e desconfiança ainda permanecem. Pergunto como vai seu trabalho.
E dá certo! Consegui mais atenção com a pergunta. Parece que era necessário provar que me lembrava. E mesmo dirigindo,
me olhava nos olhos enquanto falava sobre ser jardineiro na Embaixada do Panamá. Se soltando aos poucos, Vitor, que é mineiro de Januária, (aquela
cidadezinha que produz cachaça) falava com um sotaque carregado de interior, de humildade e pés no chão, o que me atraiu muito.
Trazia consigo aquela característica de gente que vai pra cidade grande e desconfia de tudo, que fala só quando é solicitado.
Desconfia até ver que já confia e se sente seguro pra falar sobre qualquer coisa. Então desembestou a falar...
E depois de falar sobre sua vida, o preço da gasolina e o quanto é absurdo o que pagamos em impostos no Brasil, ele me pergunta: "E eleições?"
[pausa, risos] Pensei sobre o que ia dizer e resolvi entrar na dança. Disse o que achava do atual momento, que votaria em X pra não votar em Y,
e várias outras considerações. Ele presta bastante atenção, concorda, discorda e me dá uma aula quando chega sua vez de falar. Com segurança e sensatez
afiadas, me fala sobre o poder da mídia nessas eleições e diz que em sua cidade, Januária, o povo é todo Dilma, mas quem está no poder é do Aécio,
pois 'no interior funciona diferente'. Mas que agora o PT ganhou por lá e espera uma mudança de verdade. Espera, independente de partidos ou de
quem estiver no poder, que as pessoas tomem consciência de que podem se beneficiar, beneficiando as outras também. Tem completa noção de que só depende de nós.
Eu concordo.
Mas a questão aqui está longe de ser política. A aula de hoje foi muito mais de olho no olho e humildade do que qualquer outra coisa. Vitor diz que passa na portaria
todo dia no mesmo horário, dando abertura para futuras caronas. Me esqueci de perguntar se Vitor era feliz, mas garanto que não era triste.
Chegando perto do destino final, o papo ainda estava longe de terminar e tivemos que cortar rapidamente nos despedindo e esperando o próximo encontro.
Acho que o moço não faz idéia do quanto uma carona e um dedo de prosa podem mudar o dia de alguém. "Tenha um bom dia, Vitor! Até a próxima!" -
"Bom dia, rapaz! Inté mais ver!" E assim seguiu-se a máxima das caronas: quem tem menos, dá mais!
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
despertar
desperta a flor, desperta o dia
amanhece enrolada aos lençóis com o corpo em movimentos e curvas leves
o feixe de luz deixa em evidência pernas que pedem mãos, dentes, língua
me aproximo e reparo (respiração)
seu cheiro convida ao corpo a corpo, abraço, calor, toque, pele
e se espreguiça (respiração)
exala força e prazer ao contrair seus músculos.
traz um sorriso carregado de intenções das quais também não abre mão
então provoca.
e provocar mata. (respiração)
mata qualquer resistência ou falta de vontade que pudesse existir
mata e desarma de forma que a única parte rígida do meu corpo é o pau
minha língua se tornou dependente do seu gosto
e quando você escorre me mim, me rendo!
o toque fica marcado em nossas peles,
unhas e dentes gritam de vontade
e então somos um:
toque pele cheiro gosto mãos pernas pescoço boca, sentir sentir sentir
descontrole
falta de ar
amor
amanhece enrolada aos lençóis com o corpo em movimentos e curvas leves
o feixe de luz deixa em evidência pernas que pedem mãos, dentes, língua
me aproximo e reparo (respiração)
seu cheiro convida ao corpo a corpo, abraço, calor, toque, pele
e se espreguiça (respiração)
exala força e prazer ao contrair seus músculos.
traz um sorriso carregado de intenções das quais também não abre mão
então provoca.
e provocar mata. (respiração)
mata qualquer resistência ou falta de vontade que pudesse existir
mata e desarma de forma que a única parte rígida do meu corpo é o pau
minha língua se tornou dependente do seu gosto
e quando você escorre me mim, me rendo!
o toque fica marcado em nossas peles,
unhas e dentes gritam de vontade
e então somos um:
toque pele cheiro gosto mãos pernas pescoço boca, sentir sentir sentir
descontrole
falta de ar
amor
sexta-feira, 27 de junho de 2014
domingo, 6 de abril de 2014
pés no chão
toda leveza
do voar bonito
sonhando a vida
todo amarelo
todo sorriso
é missão cumprida
todo o sentir
sem definir
sem ser daqui
não ser ninguém
que vai, não volta
que vem, não fica
que cada porta
é mais além
do voar bonito
sonhando a vida
todo amarelo
todo sorriso
é missão cumprida
todo o sentir
sem definir
sem ser daqui
não ser ninguém
que vai, não volta
que vem, não fica
que cada porta
é mais além
segunda-feira, 31 de março de 2014
sensação (um)
Morte.
A morte é necessária. Traz abertura para novas experiências, experimentos, e várias portas se abrem. Tantas portas que, juntas, trazem consigo confusão. Mas parece que confundir também é necessário. E é desconstruindo tudo, caindo aqui e ali, que a confusão já não afeta como ontem. Se instala e é digerida aos poucos, devagar. D e v a g a r . Junto com a confusão vêm os sonhos. É necessário sonhar! Quem sonha conclui. Trás consigo a ideia de renovação, alimentando a força do nascer de novo. Sonhando também caímos. Mas quem liga? O sonho tem inúmeros desfechos, vidas e mortes. E tantas possibilidades os tornam incríveis. Afinal, o tudo é melhor que nada. O tudo inclui a dualidade que faz bem ou nem tanto. Êxito e frustração se tornam alimento pra quem tem sede. O nada exclui, não se move, não se sente, não É. Morrer exige cautela e atenção. Na verdade, ninguém sabe morrer. Ao longo do caminho vai se acostumando com a o fato e já não luta como ontem. Devagar... devagando entre caminhos, com pés descalços e olhar atento. Talvez vivendo, voando... talvez andando ou tentando andar. E no meio da avoada se fazem palavras que dizem: só morre quem vive! Se arriscar é necessário. Afinal, sem graça seria se não houvessem os contrapontos. Que seria dos poetas sem a dor? Que seria do voar sem o sentir? O que será da morte sem a vida? É necessário morrer! é necessário confundir! é necessário sonhar! para ser necessário viver...
segunda-feira, 24 de março de 2014
Vazio
Quando não há lugar
para tocar
nem doer
Nada intriga
ou instiga
O que não é
E, por não ser
não sonha
Vazio:
despido de emoções
de sensações
Sentir falta
de sentir
O que não faz sentido
para tocar
nem doer
Nada intriga
ou instiga
O que não é
E, por não ser
não sonha
Vazio:
despido de emoções
de sensações
Sentir falta
de sentir
O que não faz sentido
domingo, 9 de março de 2014
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Achismo Brasiliensis
Brasílio era doente
de doença chamada
Achismo
de doença chamada
Achismo
Achava que era dono
da rua
da vida (dos outros)
do tempo
da paciência (de todos)
dos ouvidos e sentimentos
da rua
da vida (dos outros)
do tempo
da paciência (de todos)
dos ouvidos e sentimentos
Brasílio era o centro
Não enxergava dez cm ao redor
Mas Achismo cegava
Não enxergava dez cm ao redor
Mas Achismo cegava
Além de cego
ficou surdo
mudo
perdeu olfato
movimentos
e endureceu
Brasílio viveu procurando
E o Achismo
tirou sua vida
ficou surdo
mudo
perdeu olfato
movimentos
e endureceu
Brasílio viveu procurando
E o Achismo
tirou sua vida
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Chega chutando a porta
Sem avisar ou pedir licença
Tira tudo do lugar
Como se fosse seu
Sem avisar ou pedir licença
Tira tudo do lugar
Como se fosse seu
Bagunça,
em busca de qualquer coisa
Não sabe ao certo
o que procura
Definitivamente,
é intrigante a forma como age
pra conseguir o que quer
Mas sempre mantém a pose
é intrigante a forma como age
pra conseguir o que quer
Mas sempre mantém a pose
Engraçado é observar,
saber como funciona,
onde está pisando
e mesmo assim entrar na dança
saber como funciona,
onde está pisando
e mesmo assim entrar na dança
Mais engraçado ainda
é perder a passada,
esquecer a melodia
e cantar tudo errado
é perder a passada,
esquecer a melodia
e cantar tudo errado
Dança, cansa
Despe, veste
Deixa de lado
...
Despe, veste
Deixa de lado
...
Sente saudade
e faz tudo igual.
e faz tudo igual.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Cuspe 1
Quem disser que não dói está mentindo. Machuca antes mesmo
de começar. Nos faz de idiota, confunde, desperta ansiedade e expectativas
ilusórias. Deixa o animal vulnerável por mexer com o instinto mais
contraditório que existe: o de se foder para ser feliz.
A busca insaciável por sentimentos, por outros corpos, o coloca em condição de fragilidade, lutando cada vez com menos armaduras, fazendo-o baixar a guarda que antes era inabalável. Fazendo-o mendigar qualquer tipo de atenção que lhe for direcionada, se humilhar e suplicar por algo que nem sequer pode fazer bem.
O ego é realmente seu pilar de sustentação, mas se deixar levar demais por ele é pura ingenuidade. Pois ele o derruba de forma pior que te faz levantar e sua maior luta acaba sendo contra si mesmo. E não é fácil.
Pensar também dói.
A cabeça é tomada por situações diversas e palavras que poderiam ou não ser ditas naqueles tempos. Frases reformuladas moldam situações com finais diferentes apenas para aliviar um suposto arrependimento. Não sabe do que exatamente se arrepende, mas pensa que poderia ter feito de outro jeito. Ou mesmo não ter feito. Afinal, bicho homem acha que consegue fazer tudo perfeito, sempre.
Passado um tempo se reergue, entra no jogo do zero. Se envolve com outros animais e coleciona relações para provar sua força e capacidade (enganosamente) de jogar com maestria e destreza.
Volta a vestir suas armaduras e vai a caça, mesmo sabendo como funciona boa parte do que vem pela frente. Entra no ciclo com um conformismo desconfiado. Jamais desiste. Apenas se recolhe por algum tempo até que se fortaleça. Procura sempre ser melhor do que antes.
Se despe do medo
para depois
vesti-lo
novamente.
A busca insaciável por sentimentos, por outros corpos, o coloca em condição de fragilidade, lutando cada vez com menos armaduras, fazendo-o baixar a guarda que antes era inabalável. Fazendo-o mendigar qualquer tipo de atenção que lhe for direcionada, se humilhar e suplicar por algo que nem sequer pode fazer bem.
O ego é realmente seu pilar de sustentação, mas se deixar levar demais por ele é pura ingenuidade. Pois ele o derruba de forma pior que te faz levantar e sua maior luta acaba sendo contra si mesmo. E não é fácil.
Pensar também dói.
A cabeça é tomada por situações diversas e palavras que poderiam ou não ser ditas naqueles tempos. Frases reformuladas moldam situações com finais diferentes apenas para aliviar um suposto arrependimento. Não sabe do que exatamente se arrepende, mas pensa que poderia ter feito de outro jeito. Ou mesmo não ter feito. Afinal, bicho homem acha que consegue fazer tudo perfeito, sempre.
Passado um tempo se reergue, entra no jogo do zero. Se envolve com outros animais e coleciona relações para provar sua força e capacidade (enganosamente) de jogar com maestria e destreza.
Volta a vestir suas armaduras e vai a caça, mesmo sabendo como funciona boa parte do que vem pela frente. Entra no ciclo com um conformismo desconfiado. Jamais desiste. Apenas se recolhe por algum tempo até que se fortaleça. Procura sempre ser melhor do que antes.
Se despe do medo
para depois
vesti-lo
novamente.
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