E de novo subi a ladeira, mas dessa vez com um tênis pesado e o sol forte na cabeça. As pernas sentiram mais que o habitual,
a seca castigava. Chegando na portaria, um carro aponta na curva. Dedo erguido, cabeça também! O carro passa como se eu não
existisse. Normal. (Pegar caronas nesse lugar não é tão fácil. Diferente de outros condomínios, aqui muita gente acha legal
entrar no carro, entrar na bolha e esquecer do resto) Portanto, pronto pra próxima! E antes de virar completamente o corpo, já aparece outro, esse
mais antigo e sem luxo algum. De novo! Dedo erguido, cabeça também! Me olha nos olhos e para. Quase não acredito de tão rápido que foi.
Dentro, vejo que o moço já havia me dado carona antes. Isso me faz sentir mais a vontade. Logo reparo que está dirigindo descalço,
fuma um cigarro fedido e, mesmo sabendo quem eu sou, ainda analisa. E analisa com aquele olhar puro e desconfiado.
Tento quebrar o gelo falando algumas coisas aleatórias, mas sem sucesso. Análise e desconfiança ainda permanecem. Pergunto como vai seu trabalho.
E dá certo! Consegui mais atenção com a pergunta. Parece que era necessário provar que me lembrava. E mesmo dirigindo,
me olhava nos olhos enquanto falava sobre ser jardineiro na Embaixada do Panamá. Se soltando aos poucos, Vitor, que é mineiro de Januária, (aquela
cidadezinha que produz cachaça) falava com um sotaque carregado de interior, de humildade e pés no chão, o que me atraiu muito.
Trazia consigo aquela característica de gente que vai pra cidade grande e desconfia de tudo, que fala só quando é solicitado.
Desconfia até ver que já confia e se sente seguro pra falar sobre qualquer coisa. Então desembestou a falar...
E depois de falar sobre sua vida, o preço da gasolina e o quanto é absurdo o que pagamos em impostos no Brasil, ele me pergunta: "E eleições?"
[pausa, risos] Pensei sobre o que ia dizer e resolvi entrar na dança. Disse o que achava do atual momento, que votaria em X pra não votar em Y,
e várias outras considerações. Ele presta bastante atenção, concorda, discorda e me dá uma aula quando chega sua vez de falar. Com segurança e sensatez
afiadas, me fala sobre o poder da mídia nessas eleições e diz que em sua cidade, Januária, o povo é todo Dilma, mas quem está no poder é do Aécio,
pois 'no interior funciona diferente'. Mas que agora o PT ganhou por lá e espera uma mudança de verdade. Espera, independente de partidos ou de
quem estiver no poder, que as pessoas tomem consciência de que podem se beneficiar, beneficiando as outras também. Tem completa noção de que só depende de nós.
Eu concordo.
Mas a questão aqui está longe de ser política. A aula de hoje foi muito mais de olho no olho e humildade do que qualquer outra coisa. Vitor diz que passa na portaria
todo dia no mesmo horário, dando abertura para futuras caronas. Me esqueci de perguntar se Vitor era feliz, mas garanto que não era triste.
Chegando perto do destino final, o papo ainda estava longe de terminar e tivemos que cortar rapidamente nos despedindo e esperando o próximo encontro.
Acho que o moço não faz idéia do quanto uma carona e um dedo de prosa podem mudar o dia de alguém. "Tenha um bom dia, Vitor! Até a próxima!" -
"Bom dia, rapaz! Inté mais ver!" E assim seguiu-se a máxima das caronas: quem tem menos, dá mais!
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